Azulejos nas pastelarias: os painéis pintados que guardam os cafés de Lisboa

Pede-se um café, espera-se pelo pastel de nata e olham-se as paredes. Em muitas pastelarias de Lisboa estão cobertas de azulejos pintados. Não estão lá só para ficar bonitos: guardam uma história que vem de séculos atrás.
Uma palavra vinda do árabe
Azulejo vem do árabe al-zillīj, que quer dizer pedra polida. A ideia de partida era imitar os mosaicos bizantinos e romanos, com pequenas peças de barro esmaltado montadas numa parede. Os portugueses ficaram com a palavra, com a técnica e, sobretudo, com o gosto de cobrir todas as superfícies.
Do rei D. Manuel ao azulejo azul
Os primeiros azulejos conhecidos, no século XIII em Espanha, eram feitos de peças de uma só cor, cortadas em formas geométricas e montadas como um mosaico. Sevilha tornou-se o grande centro desta produção. Em 1503, o rei D. Manuel I, de regresso de uma visita a Sevilha, trouxe as mesmas técnicas para Portugal. Até meados do século XVI, porém, o país importava a maior parte dos seus azulejos, sobretudo de Espanha.
A mais antiga composição portuguesa datada em azulejo é o Milagre de São Roque, feito por Francisco de Matos em 1584. A partir daí, os portugueses retomaram a tradição moura do horror vacui, o medo do espaço vazio, e cobriram as paredes por inteiro.
O século XVII: o azul de Delft
No século XVII, o azulejo branco liso deu lugar ao policromo e depois às composições em forma de tapete, produzidas em grande número. O pintor espanhol Gabriel del Barco trouxe para Portugal o azul e branco à maneira de Delft, nos Países Baixos. Entre 1687 e 1698, o rei D. Pedro II suspendeu as importações de azulejos, e as últimas grandes entregas vindas da Holanda chegaram em 1715.
1755: o azulejo torna-se sóbrio
O terramoto de 1755 destruiu grande parte de Lisboa. Na reconstrução, o azulejo assumiu um papel mais utilitário. A decoração tornou-se nua e funcional, um estilo que se chama pombalino, em honra do marquês de Pombal, que dirigiu a reconstrução. Em algumas fachadas apareceram também pequenos painéis devocionais, destinados a proteger a casa das catástrofes futuras.
Na rua, as fachadas contam as épocas
Ao percorrer Lisboa, lêem-se as épocas nas paredes. Na Rua da Boavista, a Casa dos Parafusos mostra azulejos Art Déco dos anos 1920; a cidade restaurou a fachada depois. Na Avenida Almirante Reis, número 74, um edifício concluído em 1908 tem uma fachada Art Nouveau em azulejo, desenhada por Alfredo Pinto em 1911. No bairro da Lapa, na Rua de São Domingos, muitas fachadas são revestidas a azulejo.
Nos cafés: a Mexicana e a Trindade
A Pastelaria Mexicana, na Avenida Guerra Junqueiro, foi fundada em 1946 e renovada em 1961-1962. A sua parede tem um mural de azulejos em relevo assinado por Querubim Lapa, de 1961. Não é um museu, é um café de bairro, e é isso que torna a decoração comovente: vê-se enquanto se espera pelo café.
Na Cervejaria Trindade, na Rua Nova da Trindade, o restaurante abriu em 1836, num edifício comprado no ano anterior. Em 1863 foram encomendadas alegorias em azulejo dos elementos e das estações. Mostra que, no século XIX, o azulejo era uma decoração de sala como outra qualquer.
O que o azulejo guarda do café
Um azulejo olha-se enquanto se espera. Guarda a vida de um café: viu chegar os clientes habituais, os pedidos ao balcão e as conversas que não acabam. Por isso, um pastel de nata sabe tão bem diante de uma parede pintada.
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Fontes: Wikipedia, «Azulejo» ; Turismo de Lisboa, «Rota do Azulejo».
Foto: GualdimG, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.
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